Zona Cinzenta

Observações para uma vida não-fascista. André Campos é jornalista e se considera um anarquista-libertário.

3

de
junho

O Positivo do Poder

Para esclarecer a questão do Poder Positivo:

O poder não possui forma específica; ele é produto de uma relação de forças, das práticas entre os seres viventes; sua função não é apenas suscitar noções jurídicas de proibição, mas, sobretudo, criar comportamentos dóceis para que o corpo dos seres sociais sejam úteis ao capitalismo…

Abaixo, uma transcrição de Foucault que considero pertinente ao assunto!

…) Ora a noção de repressão é totalmente inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder. Quando se define os efeitos do poder pela repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica deste mesmo poder; identifica-se poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força da proibição. Ora, creio ser esta uma noção negativa, estreita e esquelética do poder que curiosamente todo mundo aceitou. Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.(…)(FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, 1979: p.7-8)

3

de
junho

Há diálogos possíveis entre Foucault e marxismo?

Passados 25 anos da morte de Foucault, provocada por complicções da AIDS, e, há 20 que a queda do Muro de Berlin cessou o sonho socialista (já decadente, é evidente), é possível que ainda haja um diálogo entre a teoria de Foucault e o marxismo?

Como se sabe, o filósofo sempre criticou duramente a teoria legada por Karl Marx, preconizando, ainda, a derrubada da noção dialética na filosofia ocidental do pós-guerra.

Foucault, nos anos de 1950, engajou-se no quadro marxista, namorou o “maioísmo”, brigou com o Partido Comunista Francês e, apesar de seu esforço em tentar engajar-se oficalmente na luta, passou ao campo de crítico ferrenho dos rumos tomados pela esquerda. Fato é que, apesar das críticas de pensadores de linha marxista que sofreu e sofre até hoje, Foucault nunca se atribuiu um anti-marxista.

Sua crítica à ideologia que tanto seduziu os intelectuais de sua época, se fazia mais pela sua consistente atualização quanto à mudança de posicionamento que 68 anunciaria do que uma simples “arrogância”, a que muitos se referem, ou à insistente perseguição contra a burrice de marxistas da época.

A primeira delas, e fundamental, está enquadrada naquilo a que a teoria de Michel Foucault se baseia centralmente, uma fundamentação sobre o poder. A concepção marxista fala sobre uma eventual tomada do Poder; já para Foucault, o poder não é uma posição a ser conquistada, mas uma estratégia dentro da luta entre as classes (seria mais apropriado a nomeação de grupos sociais). Para o filósofo francês, a questão jamais se reduziu à essa mudança de classes para o domínio de tal estratégia, uma vez, é bom lembrar, que essa ferramenta de controle pode ser operada por diversas partículas dentro da sociedade, que empenham funções específicas dentro das instituições que, aparentemente, não possuem qualquer evidência de ligação com o Estado (a Família, a Igreja, a Escola, etc. etc.). É bom que se diga que, apesar de ser homossexual assumido, Foucault rejeitava constantemente o movimento “Poder aos gays“, nascido nos EUA (e assim por diante às concepções como Poder ao povo, Poder aos negros, entre outras).

A segunda, reside na questão também do que falamos há pouco, sobre as instituições. Foucault conseguiu ver nessas sólidas concepções sociais do Estado Iluminista uma divisão de estratégias para realizar o que o Estado fazia diretamente. Houve uma especialização de corpos burocráticos, estrategiamente operacionados por “superiores” que detinham certos saberes e que pudessem legitimar a vigia e a punição Estatal como forma de poder instituído (médicos, professores, pais, psiquiatras, etc.). Daí, a sua análise de uma sociedade dividida entre microcorpos Estatais (a teoria da Micropolítica-micropoder) rivalizava à concepção totalizante da herança tradicional marxista.

Em terceiro lugar, o Partido Comunista dava extremo privilégio à luta entre classes, à medida que, com a transmutação de uma sociedade de micropoderes, o proletariado passou a ser mais um dos grupos explorados e, assim, outras lutas foram ignoradas - feministas, estudantis, presidiários, homossexuais. E todas elas tinham um alvo certo - o Estado. Foucault muda, assim, sua estratégia - passa da luta da exploração econômica à luta contra as sujeições identitárias (apesar de dizer que há, em certos momentos, explorações econômicas, como há as políticas). Mas jamais deixou de discutir a situação dos operários - nota-se o famoso debate dele com Chomsky (que, infelizmente, ainda não foi publicado no Brasil).

Outra via da questão é seu posicionamento à respeito do Humanismo. Para Foucault, o Humanismo é um saber, tanto quanto a justiça o é. Ambos, são ferramentas do poder que justificam o exercício da polícia, do padre, da medicina em relação ao controle dos homens e suas funções biológicas. Citei o debate com Chomsky, acima, e, para aproveitar o momento, cito uma frase usada por ele para criticar a posição do teórico norteamericano que se via como um humanista puro, ao debaterem o caráter do Justo nas sociedades de classes. “A justiça é o que para uma classe a mantém como dominante e, para outra classe, o que a reprime”.

Outra concepção que fere a linha dos marxistas-dogmáticos, é a respeito da noção do poder negativo. Têm-se sempre uma feição jurídica ao se identificar o poder - só podemos vê-lo por trás de casos extremos que dizem não, como a repressão, a supressão, o recalque, etc. Para ele, essa questão estratégica tinha o efeito de produzir, portanto, era positivo.

Mas, muito mais que isso, podemos estabelecer diálogos entre Michel Foucault e Karl Marx - mesmo que o primeiro nunca se disse marxista. Foucault foi aluno de Louis Althusser, filósofo franco-argelino declaradamente marxista e cuja contribuição teórica estabeleceu os Aparelhos Ideológicos do Estado - o que caracterizava as instituições a que Foucault faria emergir pouco mais tarde.

Em seguida, há uma tentativa de unir a questão da luta de classes à de grupos sociais. Foucault considerava sim, e isso é bastante claro, que havia exploração de classes - mas o fato, é que a exploração não era a partir e tão somente da questão econômica. Ele difundiu isso à outros grupos além daqueles que eram explorados pelo trabalho.

Apesar de jamais ter declarado seu “não abandono à Marx”, como Deleuze, Foucault contribuiu bastante para a evolução do pensamento de esquerda no mundo todo.

A questão é que, apesar de sua posição de crítico, jamais se tornou um comparsa da direita - muito pelo contrário. Seu pensamento ácido atacava mais pelo fato de a esquerda tornar-se um subproduto perdido em meio à esmagadora precisão capitalista que qualquer outra coisa.

6

de
maio

Édipo e crise financeira

Muitos cunham essa nova readaptação do capitalismo como uma crise financeira – o que está longe de sê-la. O alvo é mais ao extremo: na verdade é a redefinição do espaço do homem. E, como ponto de referência maior, o corpo humano como objetivo político do Estado ou, como prefiro chamar, do Poder Soberano.

A questão não é nova e vivemos essa crise há tempos. Ela se iniciou nos anos 60 e não como muitos dizem, com o fim do socialismo, ou como as aparências indicavam, no 11 de setembro ou na crise imobiliária do ano passado.

Refiro-me à 1968, ano-chave para se pensar a política libertária. É preciso concordar que, apesar de se brandir as mesmas e velhas bandeiras e estandartes, como Marx e Freud, a realidade era o extremo do que se pregava à época em que o pensamento se dirigia sob a égide de uma tentativa de totalização do pensar e da ação. Era preciso uma releitura desses pensadores, sob um novo prisma, libertador das noções tradicionalistas que o patético positivismo relegou e os reteve por longos anos no ostracismo.

A geração ou os grupos sociais que iniciaram o movimento revolucionário que poderia colocar novas nuvens transgressoras da realidade sob o céu retinto que hoje nos cerca, abandonaram o movimento à medida que regrediram a uma relação edipiana com os próprios desejos e expectativas.

Achavam ainda que os trabalhadores eram os motores da revolução – a linha de frente de um exército que poderia ocupar os pontos estratégicos para derrubar o sistema.

Mas o movimento de 68 era coisa muito mais além. Era uma revolta contra as instituições disciplinares e, ainda, contra a biopolítica, empregada cada vez mais pelo controle soberano. Não é à toa que Deleuze decretou a falência das instituições como a Família, a Fábrica e a Escola, para o surgimento, posterior a ela, de um novo organismo revolucionário, como a Mídia, a Empresa, os programas de Pós-graduação ao infinito, entre outras. Não foi sem propósito que Foucault iniciou seu trabalho de estudo sobre como nosso corpo é motivo de uma manipulação de que somos e de como nos conhecemos.

A questão vai além daquela que é financeira – ela toca o cerne da política moderna, que é o corpo. É uma re-introdução do Édipo, sem sequer termos o abandonado, símbolo máximo da repressão social, mas ainda mais, uma forma ainda positiva para o sistema que produz indivíduos.

1968 é uma prova que jamais abandonamos esse esquema edipiano, de como devemos nos instituir como homens e mulheres, de como devemos nos prender aos modelos sociais, como agir, como obter o prazer e como usá-lo.

É a nossa redefinição no espaço – no ambiente privado e público. É mais que uma alienação do espírito ou do capital, é uma alienação biológica. A vontade política inexiste porque aprendemos que o desejo é inimigo da revolução.

Os grupos sociais de 1968 descobriram contra o que estavam se rebelando. Cabe a nós descobrirmos contra quem lutar. Os desejos devem ser as diretrizes da revolução, nunca se pode constatar neles os conceitos negativos da repressão ou da falta.

Nosso corpo não é nosso, pertence à máquina soberana.

16

de
abril

O Homem - uma invenção de néscios

É comum tomarmos os saberes sociais como elementos produzidos por uma evolução do Humanismo, cujo efeito histórico foi abrandar os sofrimentos dos seres humanos e prepará-los para uma vida mais digna nas sociedades ocidentais.

Um exemplo real: toda a história humana prova a evolução para uma vida mais prazerosa e, antes, mais livre do homem sobre a terra e sobre aquilo que cria ou produz. Noção esta que segue uma linha positivista e que agrega em si uma terrível e perigosa ilusão quanto ao seu caráter.

Pensamos, também, que o Humanismo existe desde longínquas décadas. Mas não é bem assim!

Como nos mostra Foucault, em seu livro, As palavras e as coisas, o Humanismo é uma formulação filosófica surgida no século XIX, quando o espaço histórico necessitava de novos mecanismos de dominação que serviriam de controles com mais sutileza. Ao contrário de ser um ambiente no qual o homem está representado, é uma lacuna onde esse homem que pensávamos emergir da escuridão do século das trevas, para conhecer a si próprio sob uma luz digna, não existe.

Para tanto, Foucault cria uma nova sistemática de análise dessa nova imagem do pensamento – uma arqueologia dos saberes.

Ao falar sobre saberes, referimo-nos a tudo aquilo que Foucault denominava como discursos científicos, como a medicina, biologia, economia, lingüística, entre outras, e que ele as identificava como técnicas de legitimação de poderes e que são criadas em determinados períodos históricos para designarem as condições de preservação de algum sistema político, religioso ou econômico. Preciso é também atentar-se para o fato de que tais discursos podem ser modificados, de acordo com a necessidade da dominação se fazer mais eficaz (vê-se, em nosso caso, a reforma ortográfica ao pé da filologia).

Tais saberes criam, sobretudo, condições para subjetivações nas quais nos aprendemos e nos desenvolvemos como sujeitos para toda a vida – prontos para representar os modelos que o poder quer que sejamos para o completo domínio.

Uma arqueologia, por conseguinte, deve ser entendida como o arquivamento de discursos, suas explorações e escavações sob o subsolo e solo nos quais nasceram e se sustentam até hoje e, o que é mais importante: desdobrar os pontos nos quais sofreram abalos sísmicos para se modificarem, transmutarem e se fazerem mais eficazes que antes. Daí, você tem uma historicidade das coisas (lingüística, economia, biologia, medicina, etc.) – a idade, os pontos de convergência com determinada técnica de poder, conversões, transformações.

Enfim, o lance genial de Foucault foi perceber que a nossa idade moderna é um preenchimento da lacuna vazia que havia na idade clássica, a do “lugar do rei”, como descreve tão bem nas primeiras páginas de As palavras, sobre a tela do pintor Velásquez. Há lá, naquele reflexo no espelho em que o rei contempla tudo o que há a sua volta, o ponto contemplativo e que foi tentado ser preenchido por esse Humanismo místico. O filósofo notou que houve uma separação das coisas sobre o homem, para podê-lo transcender e para que ele próprio se reconhecesse como um ser alienado em meio às coisas – da sua linguagem, da produção da fábrica, do consumo, da política, do seu corpo como instrumento da biologia e, assim, da medicina.

E que, ao mesmo tempo, essa subordinação às regras que as coisas já trazem nascidas e edificadas nelas mesmas, também é um ponto de multiplicação para a insubordinação, fazendo dela uma fagulha para análise que irá desmascarar as “supostas verdades” criadas em benefício de uma sujeição subserviente dos indivíduos.

Basta utilizar a técnica da arqueologia de Foucault e lembrar que o indivíduo é fruto do poder.  

14

de
abril

Cinza como a fumaça dos corpos que queimam

Zona Cinzenta é uma expressão literária para descrever a indescritível experiência de Auschwitz, empregada por Primo Levi, escritor italiano e sobrevivente do Holocausto. Também é uma releitura feita por Giorgio Agamben, pensador italiano e teórico do Estado de Exceção e do Homo Sacer, feita com propriedade para os tempos atuais, uma espécie de experiência moderna do holocausto produzida por técnicas de poder mais sutis e não menos inumanas.

Para Agamben, a Zona Cinzenta é o espaço onde acontece o cruzamento de fundamentos dos saberes e das leis para fundar uma nova experiência política que tem a função de matar para gerir a vida e gerir a vida para matar – a Biopolítica.

Entre sistemas de exclusão dos direitos políticos, racismo, indeterminação entre oprimidos e opressores, práticas de extermínio da vida, a Biopolítica, como dizia Foucault, legitima-se sob os fundamentos do racismo – no qual se uma raça quer viver, deve matar a mais fraca (seja no sentido mais literal da expressão, seja no sentido político dela).

Racismo que se torna válido nas prescrições científicas dos saberes (medicina social, sociologia, etc) e que corrobora sua prática, principalmente, nos produtos que essas técnicas discursivas alinham para o perfeito funcionamento de seu sistema: na distinção, qualificação e hierarquização das raças, para garantir o modo de vida, combate e domínio do bando soberano.

Esse é um blog que se destina a reunir apontamentos, observações e investigações de temas que se conectam à Zona cinzenta. É mais um diário de pensamentos e anotações que farei das minhas leituras e releituras de Foucault, Deleuze, Agamben, Kafka, Maurice Blanchot, entre outros. Mais para além de um diário virtual que tenta descrever os fatídicos fatos corriqueiros de uma vida que quer se tornar privada-pública.

Uma guerrilha cultural, talvez.

E para aqueles que crêem que o racismo é apenas uma balela, um lembrete do maravilhoso psicanalista Jacques Lacan – “O futuro do mundo é o racismo”.

Não quero ser voz na multidão, nem luz na escuridão. Mais que ser negra como a noite ou claro como o dia, essas palavras serão cinzas como a fumaça dos corpos queimados que sobe aos céus.

André Campos

 

 

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