Passados 25 anos da morte de Foucault, provocada por complicções da AIDS, e, há 20 que a queda do Muro de Berlin cessou o sonho socialista (já decadente, é evidente), é possível que ainda haja um diálogo entre a teoria de Foucault e o marxismo?
Como se sabe, o filósofo sempre criticou duramente a teoria legada por Karl Marx, preconizando, ainda, a derrubada da noção dialética na filosofia ocidental do pós-guerra.
Foucault, nos anos de 1950, engajou-se no quadro marxista, namorou o “maioísmo”, brigou com o Partido Comunista Francês e, apesar de seu esforço em tentar engajar-se oficalmente na luta, passou ao campo de crítico ferrenho dos rumos tomados pela esquerda. Fato é que, apesar das críticas de pensadores de linha marxista que sofreu e sofre até hoje, Foucault nunca se atribuiu um anti-marxista.
Sua crítica à ideologia que tanto seduziu os intelectuais de sua época, se fazia mais pela sua consistente atualização quanto à mudança de posicionamento que 68 anunciaria do que uma simples “arrogância”, a que muitos se referem, ou à insistente perseguição contra a burrice de marxistas da época.
A primeira delas, e fundamental, está enquadrada naquilo a que a teoria de Michel Foucault se baseia centralmente, uma fundamentação sobre o poder. A concepção marxista fala sobre uma eventual tomada do Poder; já para Foucault, o poder não é uma posição a ser conquistada, mas uma estratégia dentro da luta entre as classes (seria mais apropriado a nomeação de grupos sociais). Para o filósofo francês, a questão jamais se reduziu à essa mudança de classes para o domínio de tal estratégia, uma vez, é bom lembrar, que essa ferramenta de controle pode ser operada por diversas partículas dentro da sociedade, que empenham funções específicas dentro das instituições que, aparentemente, não possuem qualquer evidência de ligação com o Estado (a Família, a Igreja, a Escola, etc. etc.). É bom que se diga que, apesar de ser homossexual assumido, Foucault rejeitava constantemente o movimento “Poder aos gays“, nascido nos EUA (e assim por diante às concepções como Poder ao povo, Poder aos negros, entre outras).
A segunda, reside na questão também do que falamos há pouco, sobre as instituições. Foucault conseguiu ver nessas sólidas concepções sociais do Estado Iluminista uma divisão de estratégias para realizar o que o Estado fazia diretamente. Houve uma especialização de corpos burocráticos, estrategiamente operacionados por “superiores” que detinham certos saberes e que pudessem legitimar a vigia e a punição Estatal como forma de poder instituído (médicos, professores, pais, psiquiatras, etc.). Daí, a sua análise de uma sociedade dividida entre microcorpos Estatais (a teoria da Micropolítica-micropoder) rivalizava à concepção totalizante da herança tradicional marxista.
Em terceiro lugar, o Partido Comunista dava extremo privilégio à luta entre classes, à medida que, com a transmutação de uma sociedade de micropoderes, o proletariado passou a ser mais um dos grupos explorados e, assim, outras lutas foram ignoradas - feministas, estudantis, presidiários, homossexuais. E todas elas tinham um alvo certo - o Estado. Foucault muda, assim, sua estratégia - passa da luta da exploração econômica à luta contra as sujeições identitárias (apesar de dizer que há, em certos momentos, explorações econômicas, como há as políticas). Mas jamais deixou de discutir a situação dos operários - nota-se o famoso debate dele com Chomsky (que, infelizmente, ainda não foi publicado no Brasil).
Outra via da questão é seu posicionamento à respeito do Humanismo. Para Foucault, o Humanismo é um saber, tanto quanto a justiça o é. Ambos, são ferramentas do poder que justificam o exercício da polícia, do padre, da medicina em relação ao controle dos homens e suas funções biológicas. Citei o debate com Chomsky, acima, e, para aproveitar o momento, cito uma frase usada por ele para criticar a posição do teórico norteamericano que se via como um humanista puro, ao debaterem o caráter do Justo nas sociedades de classes. “A justiça é o que para uma classe a mantém como dominante e, para outra classe, o que a reprime”.
Outra concepção que fere a linha dos marxistas-dogmáticos, é a respeito da noção do poder negativo. Têm-se sempre uma feição jurídica ao se identificar o poder - só podemos vê-lo por trás de casos extremos que dizem não, como a repressão, a supressão, o recalque, etc. Para ele, essa questão estratégica tinha o efeito de produzir, portanto, era positivo.
Mas, muito mais que isso, podemos estabelecer diálogos entre Michel Foucault e Karl Marx - mesmo que o primeiro nunca se disse marxista. Foucault foi aluno de Louis Althusser, filósofo franco-argelino declaradamente marxista e cuja contribuição teórica estabeleceu os Aparelhos Ideológicos do Estado - o que caracterizava as instituições a que Foucault faria emergir pouco mais tarde.
Em seguida, há uma tentativa de unir a questão da luta de classes à de grupos sociais. Foucault considerava sim, e isso é bastante claro, que havia exploração de classes - mas o fato, é que a exploração não era a partir e tão somente da questão econômica. Ele difundiu isso à outros grupos além daqueles que eram explorados pelo trabalho.
Apesar de jamais ter declarado seu “não abandono à Marx”, como Deleuze, Foucault contribuiu bastante para a evolução do pensamento de esquerda no mundo todo.
A questão é que, apesar de sua posição de crítico, jamais se tornou um comparsa da direita - muito pelo contrário. Seu pensamento ácido atacava mais pelo fato de a esquerda tornar-se um subproduto perdido em meio à esmagadora precisão capitalista que qualquer outra coisa.